segunda-feira, 12 de agosto de 2013

São Paulo, 2030.

Me surgiu uma ideia atualmente. Como não é segredo para ninguém adoro filmes e tenho um apreço especial por filmes de destruição ou de futuros distópicos (sim, como O Dia Depois de Amanhã, Guerra dos Mundos e o mais recente Círculo de Fogo) tenho até receio do que isso significaria para um psicologo - e espero que o Obama não leia esse post - mas as cenas desses filmes são geralmente tão interessantes. Nelas as cidades são destruídas, ou já estão, enquanto os seres humanos são obrigados a procurar um lugar, junto com seus familiares, para se abrigar. Acho incrível a sensação de desespero que esses filmes podem gerar, quando bem feitos. Se a ameaça é grande não há saída, a não ser talvez correr, como ocorre na maioria dos exemplares deste subgênero do cinema. 
No entanto, a grande maioria destes filmes se passam nos Estados Unidos, como é óbvio. Uma interessante leva, no entanto, tem mudado um pouco o rumo das locações. Começando pelo Distrito 9, talvez o caso atual mais emblemático, no qual a chegada de aliens ocorre na África do Sul (o que, inclusive, me faz lembrar ligeiramente da música O Dia em que Faremos Contato, do Lenine http://www.youtube.com/watch?v=6imYV1dyk30). Pensando nisso me veio à mente ter São Paulo como uma locação destes filmes. A verdade é que já existe um filme (e muito bom) na cidade, o Ensaio Sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles. O filme tem boa parte das cenas externas filmadas em pontos emblemáticos da cidade, como o Viaduto do Chá, o Minhocão e a Ponte Estaiada da Marginal Pinheiros (essa estava sendo construída ainda durante as filmagens, o que torna as cenas em que ela aparece ainda mais interessantes). Porém, não existem referências diretas à cidade no filme. Meirelles a escolheu justamente por ser uma cidade em que as pessoas não reconheceriam imediatamente o local no qual o filme se passa, já que na obra de José Saramago, livro que o filme adapta, não há uma referência ao local no qual a cegueira branca se abate. Assim sendo, por mais interessante que seja reconhecer São Paulo no filme eu acho que meu desejo de ver a cidade em um filme do subgênero comentado ainda não foi realizado.
Como estou com tempo ocioso de sobra fico pensando em diversas bobeiras e pensei em um rascunho na qual São Paulo aparecesse de forma mais enfática, sendo quase como que um personagem, em uma história de futuro distópico\destruição. Como a maioria sabe, vivemos em uma cidade que está cada vez mais tomada pelos grandes prédios, que deixaram de ser meros prédios para se tornarem quase pequenas vilas francesas. Os condomínios construídos atualmente são, cada vez mais, cercados por grandes muros. Moro em prédio, mas fiz uma visita esses dias à um muito mais emblemático, me senti entrando em uma mini cidade murada. Devido ao fato de SP possuir um péssimo transito e não ser a metrópole mais segura do mundo, esses condomínios agregam em seus espaços comuns parques, cinemas, brinquedotecas, quando não restaurantes, cabeleireiros, entre outros comércios e espaços de convivência. Não basta haver muros, para proteger o local do mundo externo, ele ainda precisa possuir dentro de si quase um microcosmos da São Paulo de fora. A imagem das cidades muradas da Europa não me sai da cabeça. Existem hoje quase que diversos pequenos feudos na cidade que se levantam com mais frequência e, por mais estranho que seja dizer isso, por menores que sejam, eles estão se tornando maiores. Ocorre claramente uma divisão espacial na maior cidade da América Latina, que o sociólogo Boaventura de Sousa Santos, por exemplo, caracterizaria como um fascismo social, por exemplo, em que os espaços da cidade são divididos de acordo com as classes sociais que os habitam. 
Ao imaginar uma São Paulo distópica me veem à imagem um São Paulo murada em que o cotidiano se fará dentro dos condomínios. Com a tecnologia existente as pessoas não mais precisarão sair de seus muros para trabalhar.  Aliás, alguns condomínios terão seus edifícios empresariais ligados aos de habitação. A rua se tornará um espaço vazio, quem sabe, tomado por algum grupo que detenha certo tipo de força e que exerça violência. As pessoas que não possuem possibilidade de morar nesses feudos urbanos ou ficarão à merce da rua ou murarão seus bairros, suas casas.
Enfim, não creio nem um pouco que seja uma ideia genial, acho até que outras pessoas já a tenham tido, mas considero interessante. Veio à mente também formas de relacionar isso com as manifestações atuais, bem como o recuo estratégico para as periferias, de forma a promover uma visão política mais contestadora das mesmas. Porque não permitir que as periferias ocupem (já que a palavra está na moda) a cidade? As áreas tomadas pelos grandes escritórios e condomínios-feudos? E se as pessoas da periferia estivessem dispostas a ocupar? E se, com medo, o governo e as classes sociais que o apoiam, bem como apoiam o caráter agressivo da PM, exigissem que retaliassem as massas e construíssem muros que as impedissem de tomar a cidade inteira?
São ideias.

domingo, 21 de julho de 2013

O Jogo Psicológico do Mosquito

Como se não bastasse a ansiedade do momento havia um mosquito. Sim, um mosquito, um nome científico aqui seria mais apropriado, pois já li em algum lugar que mosquito, na verdade, não é mosquito. Mas, que seja, não escrevo agora para saber nomes específicos, digito pois um maldito mosquito entrou pela janela do quarto, nestes dias quentes, e resolveu ficar. Óbvio, encontrou um local para se abrigar das frias madrugadas da cidade e, ainda melhor, com alimento pelas próximas 12 horas. 
Assim, enquanto durmo, ou tento, ele resolve atacar. Voa por entre as cobertas se esgueirando das rugas das mesmas e finalmente chega na orelha. O que acontece para ele querer tanto voar pela orelha? Eu não faço a mínima ideia, mas ele parece que faz questão de bater suas asas ali. O que era para não ter som nenhum, devido ao tamanho ínfimo que possui, consegue produzir um som tão ensurdecedor na calma, tranquila e esmagadoramente quieta madrugada. Eu acho que o maldito sabe que tem esse poder, ele sabe que apesar de ser pequeno possui o dom de irritar os seres humanos com o seu barulho infernal.
Não bastasse a raiva que o barulho traz, bem como as retiradas constante de sangue durante a noite, o mosquito estabelece um jogo psicológico ainda mais insano na sua vítima da madrugada. Acontece que o ódio pelo barulho é de tal monta tão grande que a vítima fica na expectativa que o mesmo volte a soar em seu tímpano. Na calada da noite, em que os sons das ruas resolveram se aquietar nas sombras, aquele "zzzzzzz" tão próximo do ouvido assume um caráter tão cruel que acaba por querer ser evitado pela vítima a qualquer custo. Sendo assim, tampa-se a orelha com o cobertor, mas a mesma esquenta, mais um incomodo. Em seguida, tenta-se tampa-la com o braço, porém a posição se torna desconfortável depois de um tempo; muda-se de posição, mas o maldito pode voltar a atacar mesmo ali. Oras, o que fazer então? 
Nada, a vítima, neste momento, está fadada a escutar o barulho do mosquito novamente, a qualquer momento, no próximo segundo, e a neura só tende a crescer. Desta forma, a merecida noite de sono cede ao receio do som do mosquito voltar a acontecer, o mosquito se torna o rei da cadeia alimentar durante a noite. Pois além de conseguir encher a pança, irá subjugar a noite inteira o maior predador da Terra, impedindo-o que durma e recupere suas energias para fazer o que deve ser feito no dia seguinte.
Não há outra solução, deve-se comprar um veneno, um repelente, uma luz daquelas de queimar mosquitos. Qualquer arma letal produzida por algum ser humano que passou por esse jogo psicológico e precisou se livrar dele alguma noite, para poder dormir em paz. 
Eu, sinceramente, acho que o mosquito aqui pode assumir uma postura metafórica para os problemas que nos afligem na hora do sono, se alguém estiver lendo isso aqui pode interpretar como quiser. Meu problema mesmo é a falta de sono que o maldito mosquito do meu quarto me proporcionou. Acendi as luzes e liguei o computador para ver se ele aparece, quem sabe não possa mata-lo logo de uma vez.


terça-feira, 16 de julho de 2013

Os Sorrisos de Cada Lugar

Sabe quando assistimos um filme de viagens, como aqueles "road movies", em que os personagens sempre acabam conhecendo diversas pessoas ao longo do caminho? Pois bem, eu sempre achei essa ideia um pouco forçada, não achava que era possível encontrar sempre pessoas tão agradáveis em todos os lugares pelos quais você passasse. Ao longo desses seis meses pude perceber, felizmente, que estava enganado. 
Durante este tempo em que estive fora e pude conhecer lugares que sempre quis, ou que nem imaginava que eu iria, percebi que é bastante plausível você encontrar pessoas que façam você soltar aquele sorriso mais natural possível. O que de fato me ocorreu foi que essas pessoas que você encontra nessas viagens não necessariamente se tornarão seus melhores amigos, ou te deixarão um ensinamento para o resto da vida, entre outras coisas que estes filmes apresentam, mas essas pessoas possuem a capacidade - e eu tenho certeza que elas não sabem que fizeram isso comigo e com aqueles que estavam comigo - de deixar uma marca muito forte em que elas se aproximam, e que fazem minhas lembranças das cidades pelas quais passei não estarem na minha mente simplesmente pelos monumentos mais importantes de cada lugar, mas sobretudo, pelo singelo sorriso que essas pessoas, de alguma forma, tiveram a gentileza de proporcionar para nós. 
E os casos são tantos e tão legais que me peguei pensando neles esses dias enquanto estava tentando dormir. Quando eu e a minha amiga estávamos em Varsóvia, na Polônia, já no início de uma primavera extremamente gelada, nós resolvemos entrar em um museu que também era um memorial aos judeus poloneses mortos durante o holocausto, no local que antigamente era o denominado "Gueto Judeu". Ao entrarmos no local e ficarmos um bom tempo olhando o que lá estava exposto, ao sairmos tivemos que assinar um livro de visitação, como geralmente os museus possuem, obviamente assinamos com nossos nomes e colocamos o estado de São Paulo e país de origem como Brasil. Após isso, seguimos caminho para fora do museu\memorial. Quando estávamos deixando o local ouvimos um senhor já mais velho, um dos guardas, nos chamando. Naquele momento, obviamente, eu pensei "ai caramba, ferrou-se", e quando viramos para atender ao chamado do homem ele nos disse, em um inglês difícil de sair (como o meu) que queria nos mostrar uma coisa. Aquele senhor nos fez entrar novamente no memorial e nos levou até uma sala em que havia uma notícia da Folha de S. Paulo, sobre a morte de duas crianças judias na região. Após nos mostrar isso, nos fez esperar enquanto pegava um livro de visitação mais antigo. Ele folheava, folheava, como que procurando algo, até que achou a assinatura de um Frei brasileiro (conhecido, por sinal, mas que me foge o nome agora) sobre sua passagem naquele museu. Naquele momento, não sei o porque, os olhos do guarda estavam com água, não acho que ele fosse chorar, mas algo ali, naquele momento, fez ele ficar levemente emocionado, da mesma forma que havia em seu rosto aquele singelo sorriso que eu comentei há pouco. 
Mais exemplos não faltam, como o guia de Marrakech, citado no post sobre Marrocos, que em alguns momentos comentava algo sobre sua família. Ou então como um homem e uma mulher em Paris que nos deram informações de como chegar até a Sacre Couer, quando estávamos, eu e mais dois amigos, levemente perdidos procurando a igreja. O homem - careca, com as costas encurvadas, e uma barriga saliente que insistia em sair das calças que a apertavam - sorria a cada palavra de ajuda que nos dava. A sua amiga - uma moça magra, pequena, com cabelos enrolados e escuros - sempre o contradizia, como que dizendo (em francês) "não, seu cabeçudo, esse caminho é o mais complicado". Os dois, de forma muito informal, mas que demonstrava uma amizade entre ambos, ficavam neste jogo de qual caminho era melhor para nos oferecer, enquanto eu, minha amiga e meu amigo olhávamos para eles falando em francês sem entender muita coisa. A verdade é que em um dado momento, os cinco estavam conversando, ou tentando conversar, em francês e em inglês, enquanto eles olhavam para a camiseta do meu amigo, perguntavam sobre ela (tinha uma imagem e uma frase do Woody Allen) e faziam algumas piadas, sempre rindo de forma muito engraçada conosco. Não me lembro mais do que falávamos, mas me marcou muito aquele momento de intimidade superficial com aquelas pessoas que não sei o nome, nunca saberei e provavelmente não verei mais na vida. 
O ruim é que a minha preguiça, e a paciência de quem lê isso, me impede de citar tantos outros casos, como o sorveteiro em Florença que não acreditava que minha amiga queria tomar o sorvete de chocolate com pimenta, ou então como a atendente do Subway de Barcelona, que ria de mim quando eu perguntava para ela qual era o nome de alguns produtos em espanhol (pois eu tinha esquecido), entre tantos outros casos, de pessoas que foram tão simpáticas que deixaram a marca delas em mim. Elas nem devem saber que eu criei uma espécie de apreço por elas, que elas estão de alguma forma na minha mente de uma maneira muito viva e que se eu faço esse texto ruim neste blog agora é para impedir que elas fujam de mim, pelo menos tão cedo. Espero que eu possa ter sido essa pessoa de sorriso singelo para alguém alguma vez na vida e espero poder receber mais desses nos lugares que eu passar. Tenho a impressão que eles foram meus melhores souvernirs. 

quinta-feira, 6 de junho de 2013

O Reino de Coimbra

É impossível, não possuo a fidelidade que um blog pede. Vejam só, nas últimas postagens eu sempre terminei dizendo que continuaria alguma história, mas em momento algum fiz isso. Pior, eu cheguei a fazer no caso das duas, mas desisti de escrever os textos. Não sei porque, talvez as lembranças tenham ficado mais esparsas, ou talvez por preguiça mesmo, ou os dois, porque não? No final das contas eu gosto de escrever aqui quando eu sinto necessidade disso, e nas três vezes que escrevi algo sobre o intercâmbio foi porque aquelas lembranças e sentimentos estavam tão fortes que eu precisava escrever isso, para depois não esquecer mais. 
Bom, é chegada a hora de mais uma vez colocar para fora alguns sentimentos. Está se aproximando o final do intercâmbio e com ele um número gigante de sentimentos que poucas vezes senti na vida. Para começar, uma saudade enorme do Brasil bateu esses dias, mas forte mesmo. Vontade de abraçar meus pais, de conversar com meus amigos, de comer a comida brasileira, até de pegar o metrô para fazer algo (por mais estranho que isso pareça). Depois, essa saudade forte acalmou um pouco, mas concomitante a isso as pessoas que eu convivo aqui em Coimbra começaram a se dispersar. Aos poucos está se iniciando um processo de despedida aqui na cidade. Primeiro o frio está deixando ela, de fato. Mesmo quando as temperaturas caem o dia continua estranhamente quente. Segundo, as aulas diárias acabaram, então não preciso ir todos os dias à faculdade, nem preciso me preocupar com os textos da aula prática do dia. Terceiro, como eu já havia adiantado a pouco, as pessoas que eu me apeguei mais aqui estão começando a ir embora, não necessariamente para o Brasil, mas estão deixando Coimbra. 
Obviamente, esse momento era mais do que esperado, mas ainda sim, você dificilmente para pensar nele quando está vivendo tudo aqui. Assim, surge uma dualidade muito interessante, que até creio já ter passado na minha vida, mas de outra forma, quando estava no ensino médio. Você quer voltar, quer reencontrar aqueles que ama e que estão longe, mas ao mesmo tempo não quer deixar esse lugar que te conquistou, muito menos as pessoas que dele fizeram parte. Acabei conversando com pessoas que já passaram pela experiência do intercâmbio e ambas me disseram que a sensação de voltar para o seu país de origem é a de voltar para a realidade. Não tenho dúvida alguma disso, afinal, a experiência do intercambio realmente o transporta para um outro local, não apenas fisicamente, mas em todos os sentidos, como até já comentei aqui também em alguma outra postagem. 
Por isso, percebi que Coimbra está meio que se transformando em algo imaginário. A ideia de estar em uma cidade que remete a uma época medieval, que possui ruas estreitas e uma Torre de Relógio que pode ser vista de quase todos os lugares, tudo isso assume um aspecto fantasioso muito interessante. Até mesmo o fato constante de os dias estarem ficando mais longos, de o clima estar mais quente, tudo isso remete muito a um mundo de fantasia, como se a recordação que eu tiver daqui será algo um tanto inatingível. Isso, creio eu, é fácil de explicar, uma vez que eu nunca mais voltarei para Coimbra da mesma forma que estou aqui hoje. Não voltarei mais com 20 anos, não mais como universitário, não mais pelo Santander, nem com as pessoas que estou aqui. A moça que me atende na pastelaria aqui da rua de baixo e que ri sempre que eu peço a mesma coisa, pode ser que nem esteja mais aqui quando eu voltar. O croissant de chocolate da faculdade, que se torna cada vez mais algum mítico, pode também não existir mais quando eu voltar.
Por isso, Coimbra parece estar se tornando um reino desses que eu leio nos livros e que vejo nos filmes (não é a toa que a J.K. Rowling se inspirou nas vestes da Universidade de Coimbra para o seu Harry Potter), um local que se torna cada vez mais distante, física e mentalmente. Acho que descobri a minha Hogwarts, Terra do Nunca, Terra Média, meu Império Galáctico, afinal. Tanto pela cidade, como pelas pessoas incríveis que estiveram e estão aqui comigo. Em breve é hora de voltar. 


terça-feira, 14 de maio de 2013

Marrakech e o Deserto.

Minha cabeça ainda está um pouco fora dos eixos por conta da viagem. Em uma semana foi Marrocos e Espanha de uma tacada só. Foi muita informação e beleza de uma vez e ainda estou digerindo tudo o que eu vi e senti nesses últimos dias.

Pegamos um trem de Coimbra até Madrid, onde chegamos bem cedo e passamos o dia, esperando pelo voo até Marrakech. Não falarei de Madrid agora pois a cidade, assim como as experiências únicas do Marrocos, merece um post só para ela.
Uma viagem com destino ao Marrocos por si só, logo de cara, traz uma inquietação muito grande: primeiro, deixar a Europa e atravessar o Estreito de Gibraltar (ainda que de avião) é algo doido demais. Segundo, conhecer um país da África pela primeira vez, uma cultura muito diferente da sua, muito mais do que qualquer outra cultura que eu tinha entrado em contato até então (e não foram muitas).
A primeira vista da cidade já foi incrível. Prédios todos muito similares, da mesma cor, tornavam Marrakech uma cidade quase camuflada pela areia que a circundava e pelas montanhas de mesma cor ao longe. A parte da imigração foi muito tranquila (com o interessante adendo de eles terem carimbado o passaporte na parte de trás do mesmo) e logo depois seguimos caminho para o Hostel\Hotel. O mesmo ficava bem na praça central de Marrakech, a Jemaa El Fna, local onde há uma grande quantidade de pessoas passando, vendendo, conversando, cantando, tocando instrumentos, comendo. Essa praça é uma verdadeira loucura. 
Depois que chegamos no aeroporto e pegamos o transfer para o hotel descemos logo de cara na praça e caramba, que emoção forte. A noite em Marrocos é muito animada por conta da trégua que o calor dá. Todos parece que deixam para sair de noite e a praça fica lotada. O som dos tambores africanos, sejam do norte sejam do sul, tocavam de uma maneira tão forte e parecia que se misturavam com o som das buzinas das motos que passavam no meio de todos os pedestres, turistas e pessoas que vivem no local. Assim sendo, o primeiro contato com a cidade foi muito forte, a energia dessa praça não é algo que vemos sempre em qualquer lugar do Brasil ou da Europa, por exemplo. É algo próprio. Uma organização daquele povo e só deles.
Vou pular a parte de descrever o Hotel\Hostel, que era muito bom por sinal, e ir contando as minhas impressões e experiências logo de uma vez. 
No dia seguinte fomos para o deserto. Um guia nos buscou lá na praça e seguimos rumo ao deserto de Zagora. O caminho seria longo, 6 horas e meia de viagem, mas o guia foi parando diversas vezes para tirarmos fotos e conhecermos cidades ao longo da estrada. Eu arrisco a dizer que a viagem de carro foi tão impactante quanto a própria estadia no deserto. Passamos em meio a Cadeia do Atlas, uma das maiores do mundo e, com certeza, mais bonita. Montanhas enormes, com o topo cheio de neve, montanhas secas que se assemelhavam a dunas, outras cheias de vegetação, outras marrons, vermelhas, enfim, uma infinidade de formas e tipos que me impressionavam a cada segundo. Além disso, uma estrada infinita que se seguia no horizonte, com apenas um ou dois carros passando por elas. Que sensação incrível eu tive durante essa viagem, ficava hipnotizado olhando para fora, muitas vezes agradecendo por estar vendo aquilo, outras vezes apenas observando mesmo, sem pensar em nada. Paramos em um dos pontos mais altos da Cadeia naquela região e pudemos ver uma espécia de Cânion que havia se formado, provavelmente ao longo de milhares de anos, e era perfeitamente claro como ali antes havia uma grande rio, descendo pela montanha. É incrível como a natureza tem uma capacidade de se modificar lentamente, mas preservar uma beleza própria na qual mesmo depois de parecer "destruir" algo vivo, como um rio, se manter igualmente impressionante e bela. 
Ao final das contas chegamos ao deserto, onde dormimos uma noite. Tomamos um chá típico do Marrocos em cima de uma duna (e os acontecimentos surreais apenas se sucediam haha), conversamos com nosso anfitrião (que falava inglês, português, espanhol, francês e árabe com a gente) e depois fomos jantar uma comida da região também (o Tajine). Em seguida fizemos um círculo em torno de uma fogueira e o pessoal que vive na região tocou músicas e nos ensinou jogos na areia, ali mesmo. Em um dado momento um jogo que ele nos ensinou (de estratégia e defesa) se tornou tão interessante que a Erica, eu e a Patrícia estávamos jogando contra mais três marroquinos, hahaha. Por fim, pudemos observar o maravilhoso céu que se tornava visível após apagar as luzes, com milhares de estrelas. Eram tantas que havia uma sensação de três dimensões no céu com, inclusive, poeira de estrelas. No dia seguinte acordamos cedo para ver o nascer do Sol, mais um momento incrível da natureza no deserto. Voltamos para Marrakech em seguida, em uma viagem mais rápida e com menos paradas. 
Nosso guia era muito simpático e a todo momento puxava assunto conosco. Meu inglês e o dele não ajudava muito, mas era sempre muito interessante poder trocar algumas ideias, pois ele parecia ter um ótimo conhecimento da região. Em um dado momento comprou um doce típico para nós, para que experimentássemos. Mas, o mais legal, foi que no final da viagem, quando ele nos deixou próximo à Praça e abriu o porta-malas para pegarmos as mochilas, havia umas 10 caixas do mesmo doce. Ele chegou do meu lado e me disse algo como: "minha família gosta muito do doce e a região por onde passamos é onde melhor se produz ele". Não há nada demais nessa frase, mas achei legal ele explicar isso para nós, como estabelecendo mais uma vez aquele laço que havia tentado antes. É inegável como além de ver as paisagens mais incríveis que já vi, tivemos uma experiência incrível de conhecer pessoas, de entender elas, de estar ali no cotidiano delas. É impossível não para pra pensar na infinidade de povos no mundo que nem se quer temos o mínimo de contato no nosso dia a dia. E por mais que houvesse ali um ambiente turístico preparado para nos receber não dá para desconsiderar o mínimo de troca de experiência que há, pois nós também falamos do Brasil para o guia, ele viu como conversávamos, como ríamos e como nos comportávamos. É algo forte demais unir a observação da natureza e o comportamento do ser humano em uma mesma experiência. Não tem como passar em branco. 


Nos dias seguintes fomos conhecer os pontos turísticos de Marrakesh e andar pelos Souks, mas vou falar sobre isso depois. 

sexta-feira, 5 de abril de 2013

A Surrealidade Alemã

Encontrei mais um tempo para escrever aqui. Voltei esses dias de viagem. Percorri a Alemanha, a República Tcheca e a Polônia. O roteiro foi exatamente: Munique, Praga, Varsóvia, Berlim e Dusseldorf, de onde pegamos o avião para voltar para Porto, por isso só fiquei dentro da estação de trem da cidade praticamente. 
Gostaria de tecer aqui alguns comentários a cerca de cada cidade, de como foi a viagem, das impressões que tive. Para começar, Munique foi um choque, no melhor sentido que isso pode significar. Claro que temos muitos conceitos previamente formados dos lugares pelos quais vamos passar, mas a Alemanha foi além destes conceitos. Ah, antes de mais nada, preciso comentar como foi antes de chegar em Munique. Viajamos pela Ryanair (empresa low cost daqui da Europa) para a Alemanha. No entanto, a Ryanair, muito "malandramente" coloca os seus voos em aeroportos pequenos muito próximos das grandes cidades que os turistas estão interessados em ir. Neste caso, o aeroporto de Munique não era bem o aeroporto de Munique e sim o aeroporto (rural) de Memmingen, relativamente próximo de Munique. Descobrimos essa malandragem da Ryanair uns dias antes de embarcar, então já reservamos um transfer da cidade para Munique, de fato. Contudo, o transfer sairia apenas na manhã do dia seguinte que chegássemos ao aeroporto, logo, teríamos que passar a noite no mesmo. Sucedeu-se que o aeroporto fechava durante a madrugada e ninguém podia ficar dentro dele. Assim, tivemos que procurar um local para nos hospedar. Sorte a nossa foi termos encontrada uma dupla de portuguesas (que me lembraram a dupla que não fala nada com nada do A Vida de Inseto) que haviam perdido o voo de volta para Porto e teriam que ficar na cidade aguardando o próximo voo. Uma delas falava alemão, o que acabaria por ajudar a todos, já que estávamos na mesma situação: procurar um lugar para ficar. 
Uma moça do aeroporto nos indicou uma pensão para dormimos aquela noite. Acontece que ao sairmos do aeroporto estava um puta frio alemão, não sei quanto era, mas devia ser de 0 graus para baixo. Andamos pra caramba e nada de achar a maldita da pensão. Quando eu disse que era um aeroporto rural não estava brincando, era realmente no meio do nada. Havia apenas algumas casas ao longo do caminho e muitas pareciam estar fechadas. O nosso campo de visão para o horizonte era apenas uma mancha preta, que descobrimos ser o pasto ao amanhecer, e a outra estrada se via muito ao longe nesse campo de visão. Para completar o cenário bucólico o ar do local era de merda de vaca (e de cavalo), muito forte! 
Continuamos andando no meio do nada. Em um dado momento vimos uma luz acesa no que parecia ser um hotel, ou restaurante, e tentamos ver se aquela era a tal da pensão indicada. Entramos, passamos por um estacionamento e demos de cara para uma porta de vidro. Uma porta que dava para ver a parte de dentro da casa, se mostrando um local bastante requintado, com aquela luz meio alaranjada de hotéis caros pra caramba. Entramos e um senhor veio nos atender. Uma das moças portuguesas começou a falar em alemão com ele, mas ele parecia não entender muito da língua. A moça perguntou (creio eu, já que ela estava tentando falar em alemão com o cara) se ele conhecia a tal da pensão, mas como ele não entendia muito pediu para seguirmos ele e falarmos com uma outra moça. Eis que a parte mais surreal da viagem e, com certeza, um dos momentos mais surreais da minha vida, aconteceu. 
Ao seguirmos o cara passamos por uma porta de madeira que dava direto para um restaurante, de fato, muito chique. A situação seria normal se não estivessem uns 10 alemães (com aparência de ter 40 anos para cima), reunidos em círculo no restaurante, discutindo em alemão! Quando me deparei com a situação comecei a rir, era inevitável. Quando na vida uma situação destas iria acontecer novamente? Os caras falavam em alemão uns com os outros (óbvio) e eu não entendendo nada, entrando em um hotel chique pra caramba, pra falar sabe-se lá com quem. Como disse minha amiga que estava comigo no momento: eram alemães decidindo o rumo da Europa. 
Ao final das contas, encontramos uma moça, que começou a falar em alemão com a portuguesa. Ela parece ter explicado o caminho da pensão. Um outro senhor apareceu, nos explicou novamente e nos levou até a porta (eu acho que ele não nos queria lá, só acho), com uma educação muito alemã (e acreditem, os alemães são educados pra caramba!). Seguimos rumo, mantendo a direção da estrada, que ficava cada vez mais escura. Neste momento comecei a rir novamente, porque as árvores (ainda secas por conta do inverno) começaram a ranger (e eu realmente achei que isso fosse coisa de filme de terror, mas acreditem, não é, elas realmente rangem) o que tornava a situação ainda mais surreal. 
Ao final das contas achamos a pensão, participamos como ouvintes de uma negociação de preços em alemão, entre o dono da pensão e a portuguesa. Além disso, descobrimos que um dos amigos do dono sabia falar português, porque ele tem parentes no Rio Grande do Sul (WTF?? QUAIS AS CHANCES?). Dormimos e no dia seguinte saímos bem cedo em direção ao aeroporto para pegar o transfer para Munique, de fato. 
Nessa altura já cansei de contar como foi a viagem. Depois volto a escrever mais no blog. 
Acho que nunca conseguirei passar para ninguém a sensação de surrealidade que tive ao entrar naquele restaurante com os alemães discutindo. Coisas que ficam na memória. 
Até mais. 


Vista da janela do quarto da pensão:

sexta-feira, 8 de março de 2013

O Primeiro Mês


Pois, e então...
Já faz um mês que estou em Coimbra, infelizmente não pude postar há um bom tempo no blog. Os trabalhos antes da viagem ocuparam minha cabeça, depois tudo o que tive que resolver em Coimbra (e ainda estou resolvendo) e, por último, os trabalhos da Unifesp novamente estão ocupando minha cabeça. A verdade é que deveria estar fazendo eles neste exato momento, mas sinceramente, não estou conseguindo me concentrar. Terminarei no domingo (um deles). 

A verdade é que Coimbra está sendo, provavelmente, uma das maiores lições que tive em minha vida. As primeiras semanas já me fizeram procurar um quarto, ao mesmo tempo que morava em uma casa que não era minha, o que impede qualquer pessoa de se sentir confortável, de ter aquele local aconchegante para voltar após um dia cansativo. O que eu percebi é que em um mês de Coimbra aprendi mais do que em uma boa parte da minha existência. Independente de como as aulas na Universidade transcorrem, se elas são melhores do que as Unifesp ou não, se estou treinando outra língua ou não, o que de fato está importando aqui é a adaptação que meu cérebro está sendo obrigado a fazer neste período.
Certa vez li em um blog de um grande professor que tive que a ação de viajar é por si só um grande empreendimento para o cérebro. Isso porque ao sair do aconchego do lar, da família, da sua comida, da sua língua (em certos casos), você se obriga a transformar toda uma visão de mundo que tinha. O seu cérebro é obrigado a entender toda uma nova situação que vai começar a partir daquela viagem. É uma reestruturação do indivíduo impressionante. O que estou querendo dizer não é que a pessoa muda a personalidade ao realizar um intercâmbio, muito pelo contrário, essa personalidade provavelmente será reafirmada, o que digo aqui é a necessidade de você se confrontar com situações que vão te obrigar a descobrir potencialidades ou fraquezas suas que você nem imaginava que existiam.

Algo que não imaginava que fosse me impactar tanto é a comida. Parece algo banal, mas realmente não é. Estou percebendo aqui o quanto a alimentação que você está acostumado faz parte da sua construção enquanto indivíduo de uma nação. A saudade do Brasil aumenta conforme aumenta a minha vontade de comer feijão, bife, ou qualquer carne que não seja a carne de porco (a carne que mais comem aqui em Portugal). Algo simples que parece ser potencializado longe de casa, haha. 
Enfim, como fiquei muito tempo sem postar acabei esquecendo de alguns detalhes interessantes. Ao mesmo tempo, resolvi colocar todos os meus primeiros sentimentos deste primeiro mês aqui, o que tornou este texto bastante desorganizado, apenas mais um amontoado de ideias. Sinto que conforme for terminando os trabalhos da Unifesp que ainda faltam estarei mais disponível para aproveitar mais tudo o que essa experiência está me proporcionando. Meu cérebro continua ligado com Osasco e com as obrigações de lá. Talvez eu ainda não esteja aproveitando 100% tudo isso aqui. Mas o tempo parece estar passando rápido demais. Tenho a impressão que este será o ano mais rápido da minha vida. 

De qualquer forma, de uma coisa eu tenho certeza. Coimbra é uma das cidades mais bonitas que já estive.