Me surgiu uma ideia atualmente. Como não é segredo para ninguém adoro filmes e tenho um apreço especial por filmes de destruição ou de futuros distópicos (sim, como O Dia Depois de Amanhã, Guerra dos Mundos e o mais recente Círculo de Fogo) tenho até receio do que isso significaria para um psicologo - e espero que o Obama não leia esse post - mas as cenas desses filmes são geralmente tão interessantes. Nelas as cidades são destruídas, ou já estão, enquanto os seres humanos são obrigados a procurar um lugar, junto com seus familiares, para se abrigar. Acho incrível a sensação de desespero que esses filmes podem gerar, quando bem feitos. Se a ameaça é grande não há saída, a não ser talvez correr, como ocorre na maioria dos exemplares deste subgênero do cinema.
No entanto, a grande maioria destes filmes se passam nos Estados Unidos, como é óbvio. Uma interessante leva, no entanto, tem mudado um pouco o rumo das locações. Começando pelo Distrito 9, talvez o caso atual mais emblemático, no qual a chegada de aliens ocorre na África do Sul (o que, inclusive, me faz lembrar ligeiramente da música O Dia em que Faremos Contato, do Lenine http://www.youtube.com/watch?v=6imYV1dyk30). Pensando nisso me veio à mente ter São Paulo como uma locação destes filmes. A verdade é que já existe um filme (e muito bom) na cidade, o Ensaio Sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles. O filme tem boa parte das cenas externas filmadas em pontos emblemáticos da cidade, como o Viaduto do Chá, o Minhocão e a Ponte Estaiada da Marginal Pinheiros (essa estava sendo construída ainda durante as filmagens, o que torna as cenas em que ela aparece ainda mais interessantes). Porém, não existem referências diretas à cidade no filme. Meirelles a escolheu justamente por ser uma cidade em que as pessoas não reconheceriam imediatamente o local no qual o filme se passa, já que na obra de José Saramago, livro que o filme adapta, não há uma referência ao local no qual a cegueira branca se abate. Assim sendo, por mais interessante que seja reconhecer São Paulo no filme eu acho que meu desejo de ver a cidade em um filme do subgênero comentado ainda não foi realizado.
Como estou com tempo ocioso de sobra fico pensando em diversas bobeiras e pensei em um rascunho na qual São Paulo aparecesse de forma mais enfática, sendo quase como que um personagem, em uma história de futuro distópico\destruição. Como a maioria sabe, vivemos em uma cidade que está cada vez mais tomada pelos grandes prédios, que deixaram de ser meros prédios para se tornarem quase pequenas vilas francesas. Os condomínios construídos atualmente são, cada vez mais, cercados por grandes muros. Moro em prédio, mas fiz uma visita esses dias à um muito mais emblemático, me senti entrando em uma mini cidade murada. Devido ao fato de SP possuir um péssimo transito e não ser a metrópole mais segura do mundo, esses condomínios agregam em seus espaços comuns parques, cinemas, brinquedotecas, quando não restaurantes, cabeleireiros, entre outros comércios e espaços de convivência. Não basta haver muros, para proteger o local do mundo externo, ele ainda precisa possuir dentro de si quase um microcosmos da São Paulo de fora. A imagem das cidades muradas da Europa não me sai da cabeça. Existem hoje quase que diversos pequenos feudos na cidade que se levantam com mais frequência e, por mais estranho que seja dizer isso, por menores que sejam, eles estão se tornando maiores. Ocorre claramente uma divisão espacial na maior cidade da América Latina, que o sociólogo Boaventura de Sousa Santos, por exemplo, caracterizaria como um fascismo social, por exemplo, em que os espaços da cidade são divididos de acordo com as classes sociais que os habitam.
Ao imaginar uma São Paulo distópica me veem à imagem um São Paulo murada em que o cotidiano se fará dentro dos condomínios. Com a tecnologia existente as pessoas não mais precisarão sair de seus muros para trabalhar. Aliás, alguns condomínios terão seus edifícios empresariais ligados aos de habitação. A rua se tornará um espaço vazio, quem sabe, tomado por algum grupo que detenha certo tipo de força e que exerça violência. As pessoas que não possuem possibilidade de morar nesses feudos urbanos ou ficarão à merce da rua ou murarão seus bairros, suas casas.
Enfim, não creio nem um pouco que seja uma ideia genial, acho até que outras pessoas já a tenham tido, mas considero interessante. Veio à mente também formas de relacionar isso com as manifestações atuais, bem como o recuo estratégico para as periferias, de forma a promover uma visão política mais contestadora das mesmas. Porque não permitir que as periferias ocupem (já que a palavra está na moda) a cidade? As áreas tomadas pelos grandes escritórios e condomínios-feudos? E se as pessoas da periferia estivessem dispostas a ocupar? E se, com medo, o governo e as classes sociais que o apoiam, bem como apoiam o caráter agressivo da PM, exigissem que retaliassem as massas e construíssem muros que as impedissem de tomar a cidade inteira?
São ideias.
São ideias.


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