domingo, 6 de junho de 2010

O Mensageiro


Nada mais verdadeiro do que dizer que a arte reflete o contexto político, social e até mesmo econômico que um país, ou o próprio mundo, vivem. A Guerra do Iraque, cujo protagonista é o Estados Unidos da América, é um comprovante desta verdade. Muitos filmes já foram feitos para mostrar e discutir o que existe de real nessa guerra, como ela é travada e as consequências imediatas ou a longo prazo. Guerra ao Terror, talvez, seja o exemplo mais conhecido dos filmes que tem como pano de fundo esse embate, mas é necessário comentar de outros que cumprem um papel até melhor na hora de demonstrar os efeitos dramáticos de uma guerra sem necessidade. O Mensageiro tem essa função.
Na história o soldado americano Will é mandado para casa após ferir-se no Iraque. Ele tem ainda três meses de serviço, e é remanejado para a divisão de notificação de falecimento de militares no front a familiares. Para enfrentar este trabalho doloroso, ele conta com um parceiro mais velho, Tony (Woody Harrelson), com quem desenvolve uma relação de companheirismo. Parceiro este, que, de fato, nunca esteve em um combate como o do Iraque.
A construção do filme está toda relacionado com as "visitas" de Will às casas dos familiares. À partir destas visitas os personagens principais são desenvolvidos. Por isso cada encontro de Will com os familiares das vítimas da guerra são extremamente essenciais para o filme. Os atores que representam os pais, as mães, as namoradas de cada soldado morto na batalha atuam de forma tão verossímel que é impossivel não tocar o espectador. Inúmeras reações são demonstradas, e cria-se, de certa forma, a expectativa de como cada um irá reagir. Alguns choram, gritam, e tentam agredir os cruéis mensageiros.
Espertamente o diretor do filme, Oren Moverman, focaliza o rosto de Will em casa mensagem que este entrega. Percebe-se a fragilidade no olhar do sargento, apesar do poder e da força que a instituição do exército americano representam. O ator Ben Foster, até agora em seu melhor papel, transmite de forma intensa os sentimentos que estão palpitando, e que, em cada mensagem dada, clama para serem libertos. Todavia, segundo Tony, não deve haver qualquer manifestação exacerbada de emoção; Nem mesmo o militar deve tocar nas pessoas que sofrem. Will, em dado momento, sente necessidade de entender quem são aqueles que ele, de forma tão áspera, conduz à tristeza. É neste momento que se envolve com uma das viúvas.
A forma brusca que a morte entra na vida de cada um ali me fez refletir o significado desta guerra, algo que eu nunca havia parado para pensar. A grande potência norte americana é um país em guerra. Apesar de se preocupar com a crise econômica, com o vazamento de petróleo, com a bomba atômica do Irã, é um país em guerra. A população que faz parte daquela nação está, de fato, em guerra com outro território. O filme, talvez, tente mostrar exatamente isto. É uma guerra doméstica, um combate doméstico, no qual as perdas se refletem em cada individuo que perde um ente querido nos campos de batalha do Iraque.
É emblemático, portanto, o momento que Tony chora desesperadamente após ouvir o depoimento de Will sobre o confronto real. Ele não chora apenas por ouvir uma história triste sobre a guerra, mas por saber, que falar dos mortos dela é estar combatendo todos os dias. Ele pode nunca ter combatido com uma arma na mão, mas todos os dias volta para casa com as mãos, o rosto, cheio de rancor, tristeza. Já Will percebe que todos ali são seres humanos, e, por isso mesmo, se mostra compreensível em diversos momentos do filme.
O Mensageiro traz o desespero da guerra. A visão cruel daqueles que não lutaram, mas sofreram e sofrem diretamente com o mal que ela produz. O mais triste é saber que do outro lado do oceano existem pessoas que choram, gritam e sofrem do mesmo jeito.






domingo, 23 de maio de 2010

Tempos de Paz



"Nasce a fera e com a pele
que desenham manchas bela
apenas é signo de estrelas (graças ao douto pincel),
quando atrevida e cruel,
a humana necessidade lhe ensina a ter crueldade,
monstro de seu labirinto:
só eu, com melhor instinto, tenho menos liberdade?"

Confesso. Eu sou preconceituoso no quesito cinema. Tenho muitas ressalvas às capas dos filmes, aos diretores que os dirigem, aos atores e ao estúdio. Mas, muitas vezes, algum desses pontos me mostra o quanto ser assim é perigoso.
Daniel Filho é conhecido pelas duas mais rentáveis comédias do cinema nacional, Se Eu Fosse Você 1 e 2. Alguns de seus outros filmes, como A Dona da História, apresentam um bom argumento, mas são mal desenvolvidos e a história, quando podia realmente começar, acaba. Conhecendo já o histórico do diretor e, não simpatizando muito com ele, fiquei interessado por dois filmes seus, pela história que contariam. O primeiro, Chico Xavier, filme que comentarei mais em breve neste blog, e o segundo, Tempos de Paz.
Tempos de Paz é o tipo de filme que causa estranheza nas primeiras cenas, a tentativa de efeito visualpara compor o Rio de Janeiro na era Getúlio Vargas fica estranha logo de cara. A atuação também não convence logo na primeira cena, e, preconceituosamente, o espectador (ou eu mesmo) já começa a procurar o que mais há de negativo ali. Este filme é um exemplo de que NÃO se deve fazer isso.
Apesar do estranho começo o filme tem um mote interessante. Em sua sinopse oficial o embate entre o chefe da imigração na Alfândega do Rio de Janeiro e um ex-ator polonês, suposto seguidor de Hitler. O chefe da alfândega (Tony Ramos) propõe ao polonês(Dan Stulbach) que se o fizesse chorar antes que o navio partisse, ele poderia ficar em território brasileiro. Inicia-se um profundo desmembramento entre os dois personagens que se embatem. Ora conhecemos mais do chefe, ora do ex-ator.
Entretanto, a sensação de mornice que o filme trazia no começo é deixado de lado à medida que o filme avança em suas discussões. Os dois atores crescem no filme de uma forma, que ao final, você se prende não apenas à história contada, mas aos gestos de cada um; à entonação na fala dos dois.
Desta forma, Tempos de Paz, é o tipico filme de atores, no qual dois grandes personagens debatem em várias passagens do filme. Passando por temas como tortura, diferanças na linguagem e teatro, o filme chega ao seu ápice em um comovente monólogo de Dan Stulbach.
Claramente simples em sua estrutura Tempos de Paz me conquistou justamente por se transformar ao longo da narrativa. Daniel Filho me mostrou que assistir à filmes é simplesmente deixar ver se aquele filme te conquista ao longo do tempo. O diretor que sabe fazer isso, minimamente, é um bom diretor. Como já diziam alguns diretores; Cinema é a arte de mentir. Mentir tão bem e de forma - paradoxalmente - sincera, que em uma hora e meia você se comove e, tal como o polonês que não quer deixar o Brasil, nós não queremos deixar o filme.
Assista Tempos de Paz.

sábado, 24 de abril de 2010

Quase Burton


Quando assisti à versão de A Fantástica Fábrica de Chocolate de Tim Burton, fiquei impressionado como ele sabia usar o seus recursos mais característicos para refazer e remontar uma história há muito anexada no imaginário popular. Fiquei um tempo depois pensando em quais histórias que, se adaptadas por ele, seriam extremamente legais de se ver. Um deles foi Alice no País das Maravilhas (pensei em O Mágico de Oz também). Depois de um tempo o inevitável, o anúncio da adaptação do clássico de Lewis Carroll nas mãos de Tim Burton!
O que mais se espera em um filme de Tim Burton é, indiscutivelmente, a direção peculiar dele. Existe algo nos filmes que fazem o espectador se encantar, encher os olhos com o que está sendo transmitido. Existe uma simplicidade e, ao mesmo tempo, um requinte no visual dos seus filmes que transbordam a experiência sensorial. Alice possui a marca "Tim Burton" em cada detalhe. Está nas minúsculas portas, nos personagens estranhos, nas árvores retorcidas, na trilha sonora de Danny Elfman, mas infelizmente, não está na essência do filme. A minha ansiedade ao ler o anúncio da adaptação era justamente em pensar que dois universos se completariam tão bem; A peculiaridade citada com a surrealidade de Alice.
Isso não acontece no filme. Pensando no Alice original: porque todos ficamos encantados com a história? Porque simplesmente ali não há lineariade. Os personagens não são fixos, eles são completamente mutáveis. Podem aparecer, desaparecer. Podem se mostrar muito mais vilões do que protagonistas ou vice-versa. Tim Burton peca exatamente nisto. Ao tentar dar uma linearidade para a personagem Alice, e sendo ela a essência do País das Maravilhas, ele dá linearidade para todos os outros personagens. Eles ficam presos ao foco da narrativa da protagonista, ficam presos e submetidos à jornada da heroína em direção à destruição do dragão da Rainha, sua antagonista declarada desde o ínicio. Não há a dúvida quanto ao que de fato nos espera naquele universo, ou seja, não há o surreal, uma vez que no fim das contas, havendo os personagens um objetivo claro, eles se tornam, de certa forma, reais.
Por possuir os detalhes burtonianos, deve-se deixar claro que o filme é extremamente belo em seu visual. Percebe-se um trabalho dedicado em toda a produção técnica do filme, o que faz este ser muito bem recebido visualmente na sala de cinema. Outro ponto interessante de notar é a permanência de uma característica do diretor muito presente em seus filmes recentes. É comum encontrar nos filmes dele críticas à alta sociedade. Analisando os mais recentes, a crítica é evidente. Em Sweeney Todd a aristocracia é citada de forma famigerada, sobretudo, em uma canção, na qual a personagem de Helena Bonham Carter tece comentários sobre o sabor da carne de cada membro da elite inglesa. Alice no País das Maravilhas não se faz diferente, desde o inicio do filme o elemento se apresenta. Aliás, o motivo para Alice seguir o coelho é justamente a não concordância da personagem com a aristocracia. Assunto este que retorna no filme na imagem da Rainha Vermelha e seus súditos. Porém, é apenas uma observação quanto á sua filmografia, uma vez que o filme, por ser em grande parte de apelo infantil, não se propõe à discutir questões como essa.
O que de fato falta é algo mais que não se completa ao visual. Nem mesmo o 3D torna-se o atrativo final para despertar o encanto do espectador - é utilizado basicamente no truque de lançar objetos na tela - e a profundidade tão requerida para um ambiente vasto como o País das Maravilhas não está ali. Além disso, o filme demora para entrar no ritmo certo.
Ironicamente, um dos primeiros nomes cogitados para o filme foi Almost Alice, "Quase Alice" em português. Ao final da sessão, fica a sensação que Alice não consegue, de fato, completar-se.
(Se fosse para dar nota: 7,5)

domingo, 11 de abril de 2010

A Revolução




Depois de ficar pensando em trabalhos que as faculdades pedem - fiquei sabendo que a Santa Marcelina pede para pensar na moda de 50 anos no futuro - e pensei também que eu não teria cacife nenhum para fazer um trabalho de moda no futuro. Porém, teria um cacife (nem tanto, admito) para fazer um trabalho do futuro do cinema. E fiquei pensando sobre como seria, portanto, o futuro do cinema.
Tomei como ponto de partida o ano passado e o ínicio desse ano. E, lógico, usei Avatar como um fator importante na construção do meu futuro cinematográfico. James Cameron sempre afirmou que Avatar iria revolucionar a indústria. Pensando no fato de ter sido filmado todo em 3D, com câmeras especiais para isso; Pensando ainda na hegemonia de bilheteria de todos os tempos e vendo as consequências imediatas do sucesso do filme, chego a conclusão que Avatar pode até não revolucionar, de fato, o cinema, mas pode ser considerado um marco.
Vejamos pelas consequências. Meses depois da estréia, e já comprovada a febre azul que se estendeu por todos os cinemas do globo, a Warner anunciou a conversão de Fúria de Titãs e de Harry Potter e as Relíquias da Morte Parte 1 e 2. Ao mesmo tempo, começou uma grande discussão se Transformers 3 seria filmado em 3D ou se seria convertido. E, acima de tudo, uma espécie de richa se desenvolveu entre aqueles que convertem e aqueles que filmam em 3D.
Não entrarei no mérito da qualidade (apesar de ler que as conversões são terríveis). O que me interessou foi que: Nenhum dos anúncios de 3D foi para filmes que não blockbusters. Podemos até dizer que isso seria evidente, que dificilmente um filme lento europeu seria filmado em 3D. Mas é exatamente nessa obviedade que queria chegar para visualizar o meu "futuro do cinema".
Se a tendência permanecer nos próximos anos, as grandes indústrias exigirão cada vez mais tal artificio nos seus filmes (claro, o ingresso é bem mais caro) e as salas adaptadas crescerão cada vez mais. Em contra partida, os filmes que não exigem o apelo do 3D na sua exibição, poderão se tornar cada vez mais segregados em cinemas de centro da cidade. Financiar a tridimensionalidade em filmes que não necessitam tanto dela, seria gastar mais dinheiro em um segmento do cinema que já é fadado à pouca bilheteria. (Basta pensar na animação hoje em dia. Depois da revolução visual de Toy Story, seguida por outros filmes da Pixar, e o correspondente aumento na bilheteria em relação às animações 2D, fez as animações com traços simples serem praticamente extinguidas do circuito abrangente de cinema).
Por isso Avatar é um divisor. Um divisor de gêneros, talvez. A divisão tão execrada por muitos, entre cinema arte e cinema pipoca poderá ser cada vez maior. O futuro da sétima arte está sendo escrito continuamente e a revolução de Cameron se torna cada vez mais próxima de nossos olhos.

sábado, 10 de abril de 2010

Up






Estava assistindo ao filme Up - Altas Aventuras. Me impressiona cada vez mais como a Pixar consegue fazer filmes, de certa forma simples, mas extremamente enriquecidos. A coragem - já muito discutida - de fazer um filme de animação com um protagonista velho é pouco perto do que o filme trata.
Para mim, o mais legal da Pixar é o fato de eles não terem vergonha de continuar fazendo filmes infantis. Porque, venhamos e convenhamos, depois de Os Incriveis e Wall-e a Pixar entrou definitivamente em uma seleta lista de grande realizadora de filmes, filmes esses considerados clássicos imediatos, e, de certa forma, com temáticas desenvolvidas de uma forma bem adulta, ainda que o filme tenha o corpo de uma criança. A seriedade de Wall-e nas suas longas cenas sem diálogos - exaltando o espaço solitário de Kubrick - e as comédias simples e - ao mesmo tempo, políticas de Chaplin - poderiam ser o tratado cinematográfico final de que dali para frente a Pixar realizaria filmes de cunho muito mais artístico, e ficaria, portanto, presa nessa premissa de estúdio de arte.
Eis que em mais uma animação anual, a nova parte criativa da Disney lança um filme que em menos de meia hora nos faz ir do riso ao choro. E poderia muito bem se sustentar em cenas lindas ao som das músicas de Michael Giacchino, mas ele pretende ser fantástico, pois ainda é uma animação, e não pretende ser real, pois não foi feito para isso.
Talvez, seja isso que falta em muitos filmes atuais, que tentam ser extremamente bem conceituados em suas temáticas. São filmes sério demais, que se levam a sério demais. Por isso, entre tantos outros motivos, a Pixar é invejável. Se é para falar da velhice, que seja usando balões coloridos.

Descobrimento

Acabei de descobrir que tenho esse blog. Provavelmente, tempos atrás, devo ter tido vontade de criar um, criei - fiquei contente por isso - e simplesmente depois esqueci que ele existia. Hoje, quando fui procurar criar um, me veio na tela do computador este belo blog, já pronto para ser usado, apenas esperando minha maturidade intelectual. Não que eu tenha lido livros que expliquem as consequências nas relações sociais sobre a semente da melancia na reprodução das abelhas africanas, muito menos, explições teóricas sobre a quimera do capitalismo financeiro que estamos inseridos. Não li nada disso! Maturidade no sentido de apenas de ter vivido mais alguns anos desde que o criei. De qualquer forma, fica aqui meu convite aos meus amigos, meus pais, minha namorada, para ler o blog e dar o maior apoio moral de continuar escrevendo nele mesmo que ninguém leia! Quanto aos leitores desconhecidos, mesmo que gostem não há necessidade de mandar para seus amigos, nem há necessidade de pedir que comentem. (Mentira!)
Boa leitura!