domingo, 18 de agosto de 2013

A Persistência da Memória

Neste sábado assisti ao filme Elena, documentário brasileiro sobre uma jovem atriz de mesmo nome que foi morar em Nova York com o sonho de atuar no cinema e que, infelizmente, morre durante o tempo em que mora na cidade. O filme é dirigido por Petra Costa, irmã mais nova de Elena, que nos gera a impressão de querer (re) descobrir a irmã e, ao mesmo tempo, conhecer um pouco de si mesma, à medida que percebemos ao longo do filme o quanto a figura da irmã mais velha era marcante na vida da pequena Petra. No entanto, minha intenção com esse post não é comentar sobre os aspectos técnicos e narrativos do filme, propriamente dito, mas sim comentar sobre o que ele me fez refletir. 
O filme foi exibido em uma sessão do Univercine, encontro mensal da Universidade Federal de São Paulo e da Cinemateca Brasileira em que um filme nacional é visto e depois discutido com a presença de algum convidado. Na sessão de Elena esteve presente uma das montadoras do filme, Idê Castro, responsável pelo primeiro processo de montagem do documentário (foram dois processos ao todo). Idê comentou com os espectadores que Petra tinha a intenção de estabelecer uma narrativa para o documentário que soasse e fluísse como a memória. Por isso o filme possui muitas imagens desfocadas, voz em off narrando alguns trechos de diários de Elena, ou então "zoom" em objetos específicos, ou movimentos corporais muito pontuais (como um toque de mão no rosto, um vestido florido voando por conta do vento, entre outros momentos minimalistas). E, de fato, a sensação por vezes é de você estar dentro da cabeça de Petra no momento em que a mesma retoma suas memórias, boas ou ruins, sobre sua irmã. Ao mesmo tempo foi impossível não pensar na questão da "memória" ao ver o filme e fazer parte do debate pós-sessão. 
Assim sendo, a memória me pareceu o tema central da narrativa. Não obstante, desde ontem me pego pensando em como temos essa memória que flui desvairadamente sem parecer ter muita coerência (e existe uma cena belíssima de mulheres flutuando na água que remete à esse fluxo de imagens da memória). O próprio filme me fez despertar minhas memórias de criança, me fez lembrar de pessoas queridas. E as memórias são assim mesmo, não sei porque, mas me lembro de momentos tão específicos e ao mesmo tempo tão singelos, situações que não considero como impactantes ou emocionantes para estarem na minha mente de forma tão presente, mas que por algum motivo estão aqui, fluindo. Contudo, ao mesmo tempo, por vezes, ao tentar relembrar momentos, situações e, principalmente, pessoas, fico assustado se algo específico delas foge de mim. Afinal, se aquilo tudo já é passado como farei para recordar do toque de alguém, da voz, do cheiro da situação? E, caramba, esse é um momento de pequeno desespero. Somos reféns de nós mesmos, de nosso próprio esquecimento.  
Ao final o filme me deu a impressão que Petra queria fixar suas memórias em imagens, como forma de impedir que elas não escapem de si mesma. Talvez ela tenha se perguntado: e se, de repente, em uma tentativa de recordar as coisas eu percebesse que esqueci delas? Talvez tenha vindo desta pergunta a ideia do filme e, mais ainda, o possível sentimento de culpa que pode surgir deste lapso de memória.
Eu não creio que seja possível, de fato, esquecermos de algo que realmente nos marcou, mas é fato que aos poucos essa memória vai se tornando menos concreta, mais fluída e, portanto, menos perceptível. Ela vai sendo decantada no fundo desse lago. Mas, elas ainda estão lá (ou aqui) esperando o momento certo para serem trazidas à superfície, basta haver a agitação necessária. Elena acaba por fazer parte de um seleto grupo de filmes que trata a questão da memória de maneira excepcional, como o conhecido Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças e A Valsa com Bashir, filmes muito bonitos que procuram mostrar tanto a fragmentação da memória em nossas mentes, como a necessidade do ser humano de manter essas lembranças vivas. E é com o passar do tempo, conforme vamos ficando mais velhos, que percebemos que, de fato, existe não apenas um, mas vários brilhos eternos nas nossas mentes. 

(A Persistência da Memória, Salvador Dalí)

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

São Paulo, 2030.

Me surgiu uma ideia atualmente. Como não é segredo para ninguém adoro filmes e tenho um apreço especial por filmes de destruição ou de futuros distópicos (sim, como O Dia Depois de Amanhã, Guerra dos Mundos e o mais recente Círculo de Fogo) tenho até receio do que isso significaria para um psicologo - e espero que o Obama não leia esse post - mas as cenas desses filmes são geralmente tão interessantes. Nelas as cidades são destruídas, ou já estão, enquanto os seres humanos são obrigados a procurar um lugar, junto com seus familiares, para se abrigar. Acho incrível a sensação de desespero que esses filmes podem gerar, quando bem feitos. Se a ameaça é grande não há saída, a não ser talvez correr, como ocorre na maioria dos exemplares deste subgênero do cinema. 
No entanto, a grande maioria destes filmes se passam nos Estados Unidos, como é óbvio. Uma interessante leva, no entanto, tem mudado um pouco o rumo das locações. Começando pelo Distrito 9, talvez o caso atual mais emblemático, no qual a chegada de aliens ocorre na África do Sul (o que, inclusive, me faz lembrar ligeiramente da música O Dia em que Faremos Contato, do Lenine http://www.youtube.com/watch?v=6imYV1dyk30). Pensando nisso me veio à mente ter São Paulo como uma locação destes filmes. A verdade é que já existe um filme (e muito bom) na cidade, o Ensaio Sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles. O filme tem boa parte das cenas externas filmadas em pontos emblemáticos da cidade, como o Viaduto do Chá, o Minhocão e a Ponte Estaiada da Marginal Pinheiros (essa estava sendo construída ainda durante as filmagens, o que torna as cenas em que ela aparece ainda mais interessantes). Porém, não existem referências diretas à cidade no filme. Meirelles a escolheu justamente por ser uma cidade em que as pessoas não reconheceriam imediatamente o local no qual o filme se passa, já que na obra de José Saramago, livro que o filme adapta, não há uma referência ao local no qual a cegueira branca se abate. Assim sendo, por mais interessante que seja reconhecer São Paulo no filme eu acho que meu desejo de ver a cidade em um filme do subgênero comentado ainda não foi realizado.
Como estou com tempo ocioso de sobra fico pensando em diversas bobeiras e pensei em um rascunho na qual São Paulo aparecesse de forma mais enfática, sendo quase como que um personagem, em uma história de futuro distópico\destruição. Como a maioria sabe, vivemos em uma cidade que está cada vez mais tomada pelos grandes prédios, que deixaram de ser meros prédios para se tornarem quase pequenas vilas francesas. Os condomínios construídos atualmente são, cada vez mais, cercados por grandes muros. Moro em prédio, mas fiz uma visita esses dias à um muito mais emblemático, me senti entrando em uma mini cidade murada. Devido ao fato de SP possuir um péssimo transito e não ser a metrópole mais segura do mundo, esses condomínios agregam em seus espaços comuns parques, cinemas, brinquedotecas, quando não restaurantes, cabeleireiros, entre outros comércios e espaços de convivência. Não basta haver muros, para proteger o local do mundo externo, ele ainda precisa possuir dentro de si quase um microcosmos da São Paulo de fora. A imagem das cidades muradas da Europa não me sai da cabeça. Existem hoje quase que diversos pequenos feudos na cidade que se levantam com mais frequência e, por mais estranho que seja dizer isso, por menores que sejam, eles estão se tornando maiores. Ocorre claramente uma divisão espacial na maior cidade da América Latina, que o sociólogo Boaventura de Sousa Santos, por exemplo, caracterizaria como um fascismo social, por exemplo, em que os espaços da cidade são divididos de acordo com as classes sociais que os habitam. 
Ao imaginar uma São Paulo distópica me veem à imagem um São Paulo murada em que o cotidiano se fará dentro dos condomínios. Com a tecnologia existente as pessoas não mais precisarão sair de seus muros para trabalhar.  Aliás, alguns condomínios terão seus edifícios empresariais ligados aos de habitação. A rua se tornará um espaço vazio, quem sabe, tomado por algum grupo que detenha certo tipo de força e que exerça violência. As pessoas que não possuem possibilidade de morar nesses feudos urbanos ou ficarão à merce da rua ou murarão seus bairros, suas casas.
Enfim, não creio nem um pouco que seja uma ideia genial, acho até que outras pessoas já a tenham tido, mas considero interessante. Veio à mente também formas de relacionar isso com as manifestações atuais, bem como o recuo estratégico para as periferias, de forma a promover uma visão política mais contestadora das mesmas. Porque não permitir que as periferias ocupem (já que a palavra está na moda) a cidade? As áreas tomadas pelos grandes escritórios e condomínios-feudos? E se as pessoas da periferia estivessem dispostas a ocupar? E se, com medo, o governo e as classes sociais que o apoiam, bem como apoiam o caráter agressivo da PM, exigissem que retaliassem as massas e construíssem muros que as impedissem de tomar a cidade inteira?
São ideias.