terça-feira, 16 de julho de 2013

Os Sorrisos de Cada Lugar

Sabe quando assistimos um filme de viagens, como aqueles "road movies", em que os personagens sempre acabam conhecendo diversas pessoas ao longo do caminho? Pois bem, eu sempre achei essa ideia um pouco forçada, não achava que era possível encontrar sempre pessoas tão agradáveis em todos os lugares pelos quais você passasse. Ao longo desses seis meses pude perceber, felizmente, que estava enganado. 
Durante este tempo em que estive fora e pude conhecer lugares que sempre quis, ou que nem imaginava que eu iria, percebi que é bastante plausível você encontrar pessoas que façam você soltar aquele sorriso mais natural possível. O que de fato me ocorreu foi que essas pessoas que você encontra nessas viagens não necessariamente se tornarão seus melhores amigos, ou te deixarão um ensinamento para o resto da vida, entre outras coisas que estes filmes apresentam, mas essas pessoas possuem a capacidade - e eu tenho certeza que elas não sabem que fizeram isso comigo e com aqueles que estavam comigo - de deixar uma marca muito forte em que elas se aproximam, e que fazem minhas lembranças das cidades pelas quais passei não estarem na minha mente simplesmente pelos monumentos mais importantes de cada lugar, mas sobretudo, pelo singelo sorriso que essas pessoas, de alguma forma, tiveram a gentileza de proporcionar para nós. 
E os casos são tantos e tão legais que me peguei pensando neles esses dias enquanto estava tentando dormir. Quando eu e a minha amiga estávamos em Varsóvia, na Polônia, já no início de uma primavera extremamente gelada, nós resolvemos entrar em um museu que também era um memorial aos judeus poloneses mortos durante o holocausto, no local que antigamente era o denominado "Gueto Judeu". Ao entrarmos no local e ficarmos um bom tempo olhando o que lá estava exposto, ao sairmos tivemos que assinar um livro de visitação, como geralmente os museus possuem, obviamente assinamos com nossos nomes e colocamos o estado de São Paulo e país de origem como Brasil. Após isso, seguimos caminho para fora do museu\memorial. Quando estávamos deixando o local ouvimos um senhor já mais velho, um dos guardas, nos chamando. Naquele momento, obviamente, eu pensei "ai caramba, ferrou-se", e quando viramos para atender ao chamado do homem ele nos disse, em um inglês difícil de sair (como o meu) que queria nos mostrar uma coisa. Aquele senhor nos fez entrar novamente no memorial e nos levou até uma sala em que havia uma notícia da Folha de S. Paulo, sobre a morte de duas crianças judias na região. Após nos mostrar isso, nos fez esperar enquanto pegava um livro de visitação mais antigo. Ele folheava, folheava, como que procurando algo, até que achou a assinatura de um Frei brasileiro (conhecido, por sinal, mas que me foge o nome agora) sobre sua passagem naquele museu. Naquele momento, não sei o porque, os olhos do guarda estavam com água, não acho que ele fosse chorar, mas algo ali, naquele momento, fez ele ficar levemente emocionado, da mesma forma que havia em seu rosto aquele singelo sorriso que eu comentei há pouco. 
Mais exemplos não faltam, como o guia de Marrakech, citado no post sobre Marrocos, que em alguns momentos comentava algo sobre sua família. Ou então como um homem e uma mulher em Paris que nos deram informações de como chegar até a Sacre Couer, quando estávamos, eu e mais dois amigos, levemente perdidos procurando a igreja. O homem - careca, com as costas encurvadas, e uma barriga saliente que insistia em sair das calças que a apertavam - sorria a cada palavra de ajuda que nos dava. A sua amiga - uma moça magra, pequena, com cabelos enrolados e escuros - sempre o contradizia, como que dizendo (em francês) "não, seu cabeçudo, esse caminho é o mais complicado". Os dois, de forma muito informal, mas que demonstrava uma amizade entre ambos, ficavam neste jogo de qual caminho era melhor para nos oferecer, enquanto eu, minha amiga e meu amigo olhávamos para eles falando em francês sem entender muita coisa. A verdade é que em um dado momento, os cinco estavam conversando, ou tentando conversar, em francês e em inglês, enquanto eles olhavam para a camiseta do meu amigo, perguntavam sobre ela (tinha uma imagem e uma frase do Woody Allen) e faziam algumas piadas, sempre rindo de forma muito engraçada conosco. Não me lembro mais do que falávamos, mas me marcou muito aquele momento de intimidade superficial com aquelas pessoas que não sei o nome, nunca saberei e provavelmente não verei mais na vida. 
O ruim é que a minha preguiça, e a paciência de quem lê isso, me impede de citar tantos outros casos, como o sorveteiro em Florença que não acreditava que minha amiga queria tomar o sorvete de chocolate com pimenta, ou então como a atendente do Subway de Barcelona, que ria de mim quando eu perguntava para ela qual era o nome de alguns produtos em espanhol (pois eu tinha esquecido), entre tantos outros casos, de pessoas que foram tão simpáticas que deixaram a marca delas em mim. Elas nem devem saber que eu criei uma espécie de apreço por elas, que elas estão de alguma forma na minha mente de uma maneira muito viva e que se eu faço esse texto ruim neste blog agora é para impedir que elas fujam de mim, pelo menos tão cedo. Espero que eu possa ter sido essa pessoa de sorriso singelo para alguém alguma vez na vida e espero poder receber mais desses nos lugares que eu passar. Tenho a impressão que eles foram meus melhores souvernirs. 

2 comentários:

Gustavo Delgado disse...

Excelente o seu post!
Me identifiquei com essa sensação de bem estar e intimidade superficial com pessoas que acabamos de conhecer. Já senti isso até mesmo em Osasco - quem diria - e simplesmente porque me dispus a isso. É incrível como a nossa vida e a forma como a encaramos, assim como as pessoas ao nosso redor, passam a mudar a uma simples mudança de nossa própria perspectiva. Traga isso pra cá quando voltar.

Lucas Bispo disse...

Valeu pelo comentário Gustavo! Concordo com você, se estamos dispostos a receber, teremos eles. Já vivi isso em São Paulo, Guarulhos entre outras cidades do Brasil também, e esse tipo de coisa acaba sendo algo que é universal, no final das contas. Acho que não existe outra forma de expressar um pouco de carinho do que o próprio sorriso. É bom saber que podemos contar com esses bons momentos inesperados.