domingo, 21 de julho de 2013

O Jogo Psicológico do Mosquito

Como se não bastasse a ansiedade do momento havia um mosquito. Sim, um mosquito, um nome científico aqui seria mais apropriado, pois já li em algum lugar que mosquito, na verdade, não é mosquito. Mas, que seja, não escrevo agora para saber nomes específicos, digito pois um maldito mosquito entrou pela janela do quarto, nestes dias quentes, e resolveu ficar. Óbvio, encontrou um local para se abrigar das frias madrugadas da cidade e, ainda melhor, com alimento pelas próximas 12 horas. 
Assim, enquanto durmo, ou tento, ele resolve atacar. Voa por entre as cobertas se esgueirando das rugas das mesmas e finalmente chega na orelha. O que acontece para ele querer tanto voar pela orelha? Eu não faço a mínima ideia, mas ele parece que faz questão de bater suas asas ali. O que era para não ter som nenhum, devido ao tamanho ínfimo que possui, consegue produzir um som tão ensurdecedor na calma, tranquila e esmagadoramente quieta madrugada. Eu acho que o maldito sabe que tem esse poder, ele sabe que apesar de ser pequeno possui o dom de irritar os seres humanos com o seu barulho infernal.
Não bastasse a raiva que o barulho traz, bem como as retiradas constante de sangue durante a noite, o mosquito estabelece um jogo psicológico ainda mais insano na sua vítima da madrugada. Acontece que o ódio pelo barulho é de tal monta tão grande que a vítima fica na expectativa que o mesmo volte a soar em seu tímpano. Na calada da noite, em que os sons das ruas resolveram se aquietar nas sombras, aquele "zzzzzzz" tão próximo do ouvido assume um caráter tão cruel que acaba por querer ser evitado pela vítima a qualquer custo. Sendo assim, tampa-se a orelha com o cobertor, mas a mesma esquenta, mais um incomodo. Em seguida, tenta-se tampa-la com o braço, porém a posição se torna desconfortável depois de um tempo; muda-se de posição, mas o maldito pode voltar a atacar mesmo ali. Oras, o que fazer então? 
Nada, a vítima, neste momento, está fadada a escutar o barulho do mosquito novamente, a qualquer momento, no próximo segundo, e a neura só tende a crescer. Desta forma, a merecida noite de sono cede ao receio do som do mosquito voltar a acontecer, o mosquito se torna o rei da cadeia alimentar durante a noite. Pois além de conseguir encher a pança, irá subjugar a noite inteira o maior predador da Terra, impedindo-o que durma e recupere suas energias para fazer o que deve ser feito no dia seguinte.
Não há outra solução, deve-se comprar um veneno, um repelente, uma luz daquelas de queimar mosquitos. Qualquer arma letal produzida por algum ser humano que passou por esse jogo psicológico e precisou se livrar dele alguma noite, para poder dormir em paz. 
Eu, sinceramente, acho que o mosquito aqui pode assumir uma postura metafórica para os problemas que nos afligem na hora do sono, se alguém estiver lendo isso aqui pode interpretar como quiser. Meu problema mesmo é a falta de sono que o maldito mosquito do meu quarto me proporcionou. Acendi as luzes e liguei o computador para ver se ele aparece, quem sabe não possa mata-lo logo de uma vez.


terça-feira, 16 de julho de 2013

Os Sorrisos de Cada Lugar

Sabe quando assistimos um filme de viagens, como aqueles "road movies", em que os personagens sempre acabam conhecendo diversas pessoas ao longo do caminho? Pois bem, eu sempre achei essa ideia um pouco forçada, não achava que era possível encontrar sempre pessoas tão agradáveis em todos os lugares pelos quais você passasse. Ao longo desses seis meses pude perceber, felizmente, que estava enganado. 
Durante este tempo em que estive fora e pude conhecer lugares que sempre quis, ou que nem imaginava que eu iria, percebi que é bastante plausível você encontrar pessoas que façam você soltar aquele sorriso mais natural possível. O que de fato me ocorreu foi que essas pessoas que você encontra nessas viagens não necessariamente se tornarão seus melhores amigos, ou te deixarão um ensinamento para o resto da vida, entre outras coisas que estes filmes apresentam, mas essas pessoas possuem a capacidade - e eu tenho certeza que elas não sabem que fizeram isso comigo e com aqueles que estavam comigo - de deixar uma marca muito forte em que elas se aproximam, e que fazem minhas lembranças das cidades pelas quais passei não estarem na minha mente simplesmente pelos monumentos mais importantes de cada lugar, mas sobretudo, pelo singelo sorriso que essas pessoas, de alguma forma, tiveram a gentileza de proporcionar para nós. 
E os casos são tantos e tão legais que me peguei pensando neles esses dias enquanto estava tentando dormir. Quando eu e a minha amiga estávamos em Varsóvia, na Polônia, já no início de uma primavera extremamente gelada, nós resolvemos entrar em um museu que também era um memorial aos judeus poloneses mortos durante o holocausto, no local que antigamente era o denominado "Gueto Judeu". Ao entrarmos no local e ficarmos um bom tempo olhando o que lá estava exposto, ao sairmos tivemos que assinar um livro de visitação, como geralmente os museus possuem, obviamente assinamos com nossos nomes e colocamos o estado de São Paulo e país de origem como Brasil. Após isso, seguimos caminho para fora do museu\memorial. Quando estávamos deixando o local ouvimos um senhor já mais velho, um dos guardas, nos chamando. Naquele momento, obviamente, eu pensei "ai caramba, ferrou-se", e quando viramos para atender ao chamado do homem ele nos disse, em um inglês difícil de sair (como o meu) que queria nos mostrar uma coisa. Aquele senhor nos fez entrar novamente no memorial e nos levou até uma sala em que havia uma notícia da Folha de S. Paulo, sobre a morte de duas crianças judias na região. Após nos mostrar isso, nos fez esperar enquanto pegava um livro de visitação mais antigo. Ele folheava, folheava, como que procurando algo, até que achou a assinatura de um Frei brasileiro (conhecido, por sinal, mas que me foge o nome agora) sobre sua passagem naquele museu. Naquele momento, não sei o porque, os olhos do guarda estavam com água, não acho que ele fosse chorar, mas algo ali, naquele momento, fez ele ficar levemente emocionado, da mesma forma que havia em seu rosto aquele singelo sorriso que eu comentei há pouco. 
Mais exemplos não faltam, como o guia de Marrakech, citado no post sobre Marrocos, que em alguns momentos comentava algo sobre sua família. Ou então como um homem e uma mulher em Paris que nos deram informações de como chegar até a Sacre Couer, quando estávamos, eu e mais dois amigos, levemente perdidos procurando a igreja. O homem - careca, com as costas encurvadas, e uma barriga saliente que insistia em sair das calças que a apertavam - sorria a cada palavra de ajuda que nos dava. A sua amiga - uma moça magra, pequena, com cabelos enrolados e escuros - sempre o contradizia, como que dizendo (em francês) "não, seu cabeçudo, esse caminho é o mais complicado". Os dois, de forma muito informal, mas que demonstrava uma amizade entre ambos, ficavam neste jogo de qual caminho era melhor para nos oferecer, enquanto eu, minha amiga e meu amigo olhávamos para eles falando em francês sem entender muita coisa. A verdade é que em um dado momento, os cinco estavam conversando, ou tentando conversar, em francês e em inglês, enquanto eles olhavam para a camiseta do meu amigo, perguntavam sobre ela (tinha uma imagem e uma frase do Woody Allen) e faziam algumas piadas, sempre rindo de forma muito engraçada conosco. Não me lembro mais do que falávamos, mas me marcou muito aquele momento de intimidade superficial com aquelas pessoas que não sei o nome, nunca saberei e provavelmente não verei mais na vida. 
O ruim é que a minha preguiça, e a paciência de quem lê isso, me impede de citar tantos outros casos, como o sorveteiro em Florença que não acreditava que minha amiga queria tomar o sorvete de chocolate com pimenta, ou então como a atendente do Subway de Barcelona, que ria de mim quando eu perguntava para ela qual era o nome de alguns produtos em espanhol (pois eu tinha esquecido), entre tantos outros casos, de pessoas que foram tão simpáticas que deixaram a marca delas em mim. Elas nem devem saber que eu criei uma espécie de apreço por elas, que elas estão de alguma forma na minha mente de uma maneira muito viva e que se eu faço esse texto ruim neste blog agora é para impedir que elas fujam de mim, pelo menos tão cedo. Espero que eu possa ter sido essa pessoa de sorriso singelo para alguém alguma vez na vida e espero poder receber mais desses nos lugares que eu passar. Tenho a impressão que eles foram meus melhores souvernirs.