É impossível, não possuo a fidelidade que um blog pede. Vejam só, nas últimas postagens eu sempre terminei dizendo que continuaria alguma história, mas em momento algum fiz isso. Pior, eu cheguei a fazer no caso das duas, mas desisti de escrever os textos. Não sei porque, talvez as lembranças tenham ficado mais esparsas, ou talvez por preguiça mesmo, ou os dois, porque não? No final das contas eu gosto de escrever aqui quando eu sinto necessidade disso, e nas três vezes que escrevi algo sobre o intercâmbio foi porque aquelas lembranças e sentimentos estavam tão fortes que eu precisava escrever isso, para depois não esquecer mais.
Bom, é chegada a hora de mais uma vez colocar para fora alguns sentimentos. Está se aproximando o final do intercâmbio e com ele um número gigante de sentimentos que poucas vezes senti na vida. Para começar, uma saudade enorme do Brasil bateu esses dias, mas forte mesmo. Vontade de abraçar meus pais, de conversar com meus amigos, de comer a comida brasileira, até de pegar o metrô para fazer algo (por mais estranho que isso pareça). Depois, essa saudade forte acalmou um pouco, mas concomitante a isso as pessoas que eu convivo aqui em Coimbra começaram a se dispersar. Aos poucos está se iniciando um processo de despedida aqui na cidade. Primeiro o frio está deixando ela, de fato. Mesmo quando as temperaturas caem o dia continua estranhamente quente. Segundo, as aulas diárias acabaram, então não preciso ir todos os dias à faculdade, nem preciso me preocupar com os textos da aula prática do dia. Terceiro, como eu já havia adiantado a pouco, as pessoas que eu me apeguei mais aqui estão começando a ir embora, não necessariamente para o Brasil, mas estão deixando Coimbra.
Obviamente, esse momento era mais do que esperado, mas ainda sim, você dificilmente para pensar nele quando está vivendo tudo aqui. Assim, surge uma dualidade muito interessante, que até creio já ter passado na minha vida, mas de outra forma, quando estava no ensino médio. Você quer voltar, quer reencontrar aqueles que ama e que estão longe, mas ao mesmo tempo não quer deixar esse lugar que te conquistou, muito menos as pessoas que dele fizeram parte. Acabei conversando com pessoas que já passaram pela experiência do intercâmbio e ambas me disseram que a sensação de voltar para o seu país de origem é a de voltar para a realidade. Não tenho dúvida alguma disso, afinal, a experiência do intercambio realmente o transporta para um outro local, não apenas fisicamente, mas em todos os sentidos, como até já comentei aqui também em alguma outra postagem.
Por isso, percebi que Coimbra está meio que se transformando em algo imaginário. A ideia de estar em uma cidade que remete a uma época medieval, que possui ruas estreitas e uma Torre de Relógio que pode ser vista de quase todos os lugares, tudo isso assume um aspecto fantasioso muito interessante. Até mesmo o fato constante de os dias estarem ficando mais longos, de o clima estar mais quente, tudo isso remete muito a um mundo de fantasia, como se a recordação que eu tiver daqui será algo um tanto inatingível. Isso, creio eu, é fácil de explicar, uma vez que eu nunca mais voltarei para Coimbra da mesma forma que estou aqui hoje. Não voltarei mais com 20 anos, não mais como universitário, não mais pelo Santander, nem com as pessoas que estou aqui. A moça que me atende na pastelaria aqui da rua de baixo e que ri sempre que eu peço a mesma coisa, pode ser que nem esteja mais aqui quando eu voltar. O croissant de chocolate da faculdade, que se torna cada vez mais algum mítico, pode também não existir mais quando eu voltar.
Por isso, Coimbra parece estar se tornando um reino desses que eu leio nos livros e que vejo nos filmes (não é a toa que a J.K. Rowling se inspirou nas vestes da Universidade de Coimbra para o seu Harry Potter), um local que se torna cada vez mais distante, física e mentalmente. Acho que descobri a minha Hogwarts, Terra do Nunca, Terra Média, meu Império Galáctico, afinal. Tanto pela cidade, como pelas pessoas incríveis que estiveram e estão aqui comigo. Em breve é hora de voltar.
