terça-feira, 14 de maio de 2013

Marrakech e o Deserto.

Minha cabeça ainda está um pouco fora dos eixos por conta da viagem. Em uma semana foi Marrocos e Espanha de uma tacada só. Foi muita informação e beleza de uma vez e ainda estou digerindo tudo o que eu vi e senti nesses últimos dias.

Pegamos um trem de Coimbra até Madrid, onde chegamos bem cedo e passamos o dia, esperando pelo voo até Marrakech. Não falarei de Madrid agora pois a cidade, assim como as experiências únicas do Marrocos, merece um post só para ela.
Uma viagem com destino ao Marrocos por si só, logo de cara, traz uma inquietação muito grande: primeiro, deixar a Europa e atravessar o Estreito de Gibraltar (ainda que de avião) é algo doido demais. Segundo, conhecer um país da África pela primeira vez, uma cultura muito diferente da sua, muito mais do que qualquer outra cultura que eu tinha entrado em contato até então (e não foram muitas).
A primeira vista da cidade já foi incrível. Prédios todos muito similares, da mesma cor, tornavam Marrakech uma cidade quase camuflada pela areia que a circundava e pelas montanhas de mesma cor ao longe. A parte da imigração foi muito tranquila (com o interessante adendo de eles terem carimbado o passaporte na parte de trás do mesmo) e logo depois seguimos caminho para o Hostel\Hotel. O mesmo ficava bem na praça central de Marrakech, a Jemaa El Fna, local onde há uma grande quantidade de pessoas passando, vendendo, conversando, cantando, tocando instrumentos, comendo. Essa praça é uma verdadeira loucura. 
Depois que chegamos no aeroporto e pegamos o transfer para o hotel descemos logo de cara na praça e caramba, que emoção forte. A noite em Marrocos é muito animada por conta da trégua que o calor dá. Todos parece que deixam para sair de noite e a praça fica lotada. O som dos tambores africanos, sejam do norte sejam do sul, tocavam de uma maneira tão forte e parecia que se misturavam com o som das buzinas das motos que passavam no meio de todos os pedestres, turistas e pessoas que vivem no local. Assim sendo, o primeiro contato com a cidade foi muito forte, a energia dessa praça não é algo que vemos sempre em qualquer lugar do Brasil ou da Europa, por exemplo. É algo próprio. Uma organização daquele povo e só deles.
Vou pular a parte de descrever o Hotel\Hostel, que era muito bom por sinal, e ir contando as minhas impressões e experiências logo de uma vez. 
No dia seguinte fomos para o deserto. Um guia nos buscou lá na praça e seguimos rumo ao deserto de Zagora. O caminho seria longo, 6 horas e meia de viagem, mas o guia foi parando diversas vezes para tirarmos fotos e conhecermos cidades ao longo da estrada. Eu arrisco a dizer que a viagem de carro foi tão impactante quanto a própria estadia no deserto. Passamos em meio a Cadeia do Atlas, uma das maiores do mundo e, com certeza, mais bonita. Montanhas enormes, com o topo cheio de neve, montanhas secas que se assemelhavam a dunas, outras cheias de vegetação, outras marrons, vermelhas, enfim, uma infinidade de formas e tipos que me impressionavam a cada segundo. Além disso, uma estrada infinita que se seguia no horizonte, com apenas um ou dois carros passando por elas. Que sensação incrível eu tive durante essa viagem, ficava hipnotizado olhando para fora, muitas vezes agradecendo por estar vendo aquilo, outras vezes apenas observando mesmo, sem pensar em nada. Paramos em um dos pontos mais altos da Cadeia naquela região e pudemos ver uma espécia de Cânion que havia se formado, provavelmente ao longo de milhares de anos, e era perfeitamente claro como ali antes havia uma grande rio, descendo pela montanha. É incrível como a natureza tem uma capacidade de se modificar lentamente, mas preservar uma beleza própria na qual mesmo depois de parecer "destruir" algo vivo, como um rio, se manter igualmente impressionante e bela. 
Ao final das contas chegamos ao deserto, onde dormimos uma noite. Tomamos um chá típico do Marrocos em cima de uma duna (e os acontecimentos surreais apenas se sucediam haha), conversamos com nosso anfitrião (que falava inglês, português, espanhol, francês e árabe com a gente) e depois fomos jantar uma comida da região também (o Tajine). Em seguida fizemos um círculo em torno de uma fogueira e o pessoal que vive na região tocou músicas e nos ensinou jogos na areia, ali mesmo. Em um dado momento um jogo que ele nos ensinou (de estratégia e defesa) se tornou tão interessante que a Erica, eu e a Patrícia estávamos jogando contra mais três marroquinos, hahaha. Por fim, pudemos observar o maravilhoso céu que se tornava visível após apagar as luzes, com milhares de estrelas. Eram tantas que havia uma sensação de três dimensões no céu com, inclusive, poeira de estrelas. No dia seguinte acordamos cedo para ver o nascer do Sol, mais um momento incrível da natureza no deserto. Voltamos para Marrakech em seguida, em uma viagem mais rápida e com menos paradas. 
Nosso guia era muito simpático e a todo momento puxava assunto conosco. Meu inglês e o dele não ajudava muito, mas era sempre muito interessante poder trocar algumas ideias, pois ele parecia ter um ótimo conhecimento da região. Em um dado momento comprou um doce típico para nós, para que experimentássemos. Mas, o mais legal, foi que no final da viagem, quando ele nos deixou próximo à Praça e abriu o porta-malas para pegarmos as mochilas, havia umas 10 caixas do mesmo doce. Ele chegou do meu lado e me disse algo como: "minha família gosta muito do doce e a região por onde passamos é onde melhor se produz ele". Não há nada demais nessa frase, mas achei legal ele explicar isso para nós, como estabelecendo mais uma vez aquele laço que havia tentado antes. É inegável como além de ver as paisagens mais incríveis que já vi, tivemos uma experiência incrível de conhecer pessoas, de entender elas, de estar ali no cotidiano delas. É impossível não para pra pensar na infinidade de povos no mundo que nem se quer temos o mínimo de contato no nosso dia a dia. E por mais que houvesse ali um ambiente turístico preparado para nos receber não dá para desconsiderar o mínimo de troca de experiência que há, pois nós também falamos do Brasil para o guia, ele viu como conversávamos, como ríamos e como nos comportávamos. É algo forte demais unir a observação da natureza e o comportamento do ser humano em uma mesma experiência. Não tem como passar em branco. 


Nos dias seguintes fomos conhecer os pontos turísticos de Marrakesh e andar pelos Souks, mas vou falar sobre isso depois.