domingo, 29 de agosto de 2010

Pessoa




Nada melhor do que as coincidências. Aprender sobre Fernando Pessoa na mesma semana que chega sua exposição à São Paulo é uma dessas coincidências felizes. A exposição, que está no Museu da Língua Portuguesa, utiliza da interatividade para conquistar as pessoas. Ainda assim, a matéria prima da exposição são palavras. As palavras estão por toda parte, no som, nas paredes, em imagens que se esvaem - e se transformam em outras palavras. A palavra está nos olhos das pessoas, que refletem os poemas ali expostos. Somos efetivamente convidados a "Penetrar surdamente no reino das palavras", como diria outro grande modernista.
Enquanto você lê todas aquelas poesias sua mente entra em um certo estado de transe. Entender o que está escrito ali não é necessário, sentir é necessário. Aliás, tema recorrente entre os heterônimos do poeta. A verdade é que tudo nos chama para uma experiência sensorial. O corpo, apesar de ser comandado pelo cérebro, é um organismo, que atua em conjunto. Portanto, para entender não basta racionalizar, tem que sentir!
Surge uma dúvida. Sentir é um ato imediato, seja no quesito emocional seja no físico. Porém, quando fazemos uma simples troca de letras - excluindo o "r" e adicionando o "do" - de certa forma, tudo muda. O Sentir vira Sentido, e consequentemente, surge o raciocinio. Oras, ter sentido é ter significado e para ter significado precisamos raciocinar. Na minha visão bem pessoal a obra de Fernando Pessoa tenta fundir o Sentir e o Sentido. A partir do momento que nos dispomos a entrar em contato com essa obra nos dispomos a unir as duas palavras.
Quando lemos e ouvimos todos os textos utilizamos o físico (para enxergar ou ouvir), usamos o racional (para costurar as palavras do texto) e usamos o sentimento. A forma que a exposição foi feita faz todo sentido se pensarmos por esse lado.
Se era louco, médium ou simplesmente gênio, não sei dizer. Sei que utilizando cada passo que citei acima, para tentar entende-lô, ele cresceu dentro de mim enquanto ser humano. Por ter uma técnica, digamos mais apurada, Fernando Pessoa soube dizer tudo aquilo que sentia e não sentia, ou fingia não sentir. Ele soube fazer jus ao seu sobrenome e se mostrar, acima de tudo, como uma pessoa normal. Porque, venhamos e convenhamos, temos dentro de nós um pouco de cada heterônimo. Todos somos nós mesmos, mas muita vezes preferimos não ser. No fim das contas, todos somos poetas fingidores, com medo demais de mostrar isso para o mundo.

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Permita-me uma brincadeira.

Alguém, em algum momento que aprendi sobre Pessoa, me disse para fazer uma troca de palavras em um de seus poemas. O resultado:

Ó vestibular salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por estudarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas namoradas ficaram por esperar
Para que fosses nosso, ó vestibular!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao vestibular o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Uhauahauaa. Fernando Pessoa é ou não é universal?